É fato que há pessoas que conduzem suas vidas com uma necessidade mórbida de falar das desgraças e infortúnios alheios. Nunca, é claro, de si mesmas. Evidente é que há pessoas que superaram as fofocas e construíram uma vida mais autêntica.
O ser humano é sempre inacabado e inesperado. Aberto aos desafios da vida ou paralisado por suas limitações. Não há regras para a história do homem . Não há caminhos já traçados ou destinos desastrosos. Ele deve dar uma destinação adequada para cada atitude de sua existência. Mesmo que se espelhe em bons exemplos, há que construir o próprio. Podemos dizer também que o homem é um ser em projeto, um ser a caminho. Tem sonhos e esperanças. Muito ainda não realizou, mas cria condições de atingir a meta desejada. Vive o hoje, vislumbrando o amanhã. Mesmo que não atinja tudo que espera, houve o motivo para a luta, para continuar vivendo. Ser- em- projeto.
A fofoca nasce justamente no ser humano que passa pela vida sem projetos e sonhos. E o fracasso alheio atenua sua existência medíocre, pois pensa não estar sozinho em sua ignorância e insensatez. Não foi o único a perder. Que alívio! Mas isto ainda é pouco. Ufana-se em propagar as desgraças alheias com refrigério ainda maior para sua alma mesquinha.
Podemos ir ainda mais longe, tecendo considerações sobre a fofoca, os fofoqueiros e fofoqueiras . Há o que chamamos de ser autêntico e de ser inautêntico.
Ser autêntico é aquele que se reconhece em processo, em construção. Nunca finalizado. Está aberto aos desafios e ao novo. Não tem necessidades de falar dos defeitos do outro. Antes, tenta escutar as próprias limitações e corrigi-las, aprendendo com as qualidades e experiências do outro. Aliás, o outro não lhe causa ameaça, mas alguém para dialogar, conviver e aprender. Ser autêntico é aquele que chamamos de ser cêntrico . Tem o eixo central de sua vida fixado nele mesmo, com todas suas limitações e contradições. Ama-se e se perdoa. É compreensivo com suas próprias limitações e sensível às limitações do outro. Ama as pessoas e usa as coisas.
Ser inautêntico é por natureza excêntrico. O outro é o referencial mais importante da sua vida . É incapaz de conviver bem consigo, já que nunca se encontrou, se aproximou de seu próprio interior. Vive falando mal do outro, pois conviver consigo mesmo é um verdadeiro inferno. Agigantador dos infortúnios alheios, jamais encontrou em si mesmo sua maior riqueza. Ser inautêntico, frustrado, cheio de despeitos e desafetos. Pronto para destilar com sua língua o mais puro veneno, que lhe volta à boca com gosto de fel. Seres mal amados, pois antes de não ter quem os ame, não conseguem se amar. Por isto, mal amados. Usam as pessoas e amam as coisas .
O fofoqueiro é um verdadeiro depreciador crítico. Prefere ver os outros para baixo a se elevar através de suas próprias realizações. Talvez, no fundo esconda um sentimento de culpa. A fofoca então aliviaria sua dor e o faria não se sentir tão mal com suas próprias falhas. Afinal, sua maledicência não se compara com as desgraças alheias.
Proponho soluções. Primeiro para aquele que chafurdou sua vida na lama da fofoca e da excentricidade. Encontre seu eu perdido, use da palavra para edificar, construir pontes de solidariedade entre os homens. Afinal, neste mundo não há lugar para seres solitários, mas para gente solidária. E para aquele que se julgou injustamente difamado pelos dardos felinos da língua alheia, consola Sartre, conhecido pensador francês: “ O importante não é o que falam de mim, mas o que eu faço com o que falam de mim.”
Gil